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Quem é o seu cúmplice? Ter um cúmplice significa não estar sozinho, ainda que à sua volta, momentaneamente, não haja ninguém.

A cumplicidade, é algo vivo e recíproco, testado por sentimentos instantâneos. Se aconteceu alguma coisa grave, você precisa falar com aquela pessoa. Se teve uma grande alegria, ligará primeiro para ela. É o olhar acolhedor dela – no sofá, no fim do dia; durante a conversa em voz baixa no restaurante, ou rindo no Skype – que recoloca no lugar as suas emoções, que oferece alento e segurança.
Ter cúmplice significa não estar sozinho, ainda que à sua volta, momentaneamente, não haja ninguém.
É possível ter vários amigos, mas o sentimento da cumplicidade – como eu tento descrevê-lo – é reservado a uma única pessoa. Sua existência separa o joio do trigo. Distingue o que é essencial do que é supérfluo. Aponta, no meio da confusão e da bagunça, o que é claro e límpido.
Como todo sentimento essencial, a cumplicidade não nasce do nada. Ela é construída aos poucos, numa combinação gradual de atração, intimidade e confiança. Vai sendo erguida por conversas e experiências conjuntas. Sobretudo experiências. Elas reforçam a presença do outro na nossa vida e criam um repertório comum. Sedimentam a sensação de NÓS – em oposição a ELES – sem a qual as subjetividades não se juntam.
Além de gostosa, a cumplicidade torna as pessoas insubstituíveis. Ela cria a sensação de que há um único ser humano no planeta que nos preenche emocionalmente. Apenas ele ou ela nos entende e faz com que nos sintamos à vontade, porque nos reserva um espaço equivalente em sua vida. Na ausência repentina dessa personalidade única – e do nosso universo espelhado, que ela carrega consigo – o mundo parece vazio de sentido. Perfeitamente cinza e assustador.
Para quem está nesse deserto, uma notícia: novas cumplicidades se constroem, assim como as velhas perecem. A segunda parte não parece animadora no momento, mas será. Um dia, você encontrará sua ex alma inseparável e não sentirá mais que carinho fraternal por ela. Não terá impulsos de tocar seu rosto ou lhe contar como está feliz no emprego novo. Algo terá se perdido, inevitavelmente. Mas algo novo estará em ebulição.

Texto: Ivan Martins