fbpx

Ninguém é melhor do que ninguém pelo apelido que carrega ou pelo local de nascimento

“Ando há uma semana com um cano a pingar na garagem. E ainda não consegui encontrar um canalizador com disponibilidade para vir aqui. Mas pobre do filho que diga aos pais, especialmente se forem licenciados, que vai tirar um curso profissional de canalizador e que dispensa bem seguir para a universidade. É como se tivéssemos dividido a sociedade em castas consoante o grau académico e a profissão de cada um. E isto é deprimente a todos os níveis.

Há sabedoria em todos nós. Há dignidade em cada um. Ninguém é melhor do que ninguém pelo apelido que carrega ou pelo local de nascimento. Ninguém passa à frente de ninguém porque emoldurou três diplomas na parede do escritório.

Mas a gente não se consegue livrar disto. Do “bom dia, sotor”, do “deseja um cafezinho, sotor?”, do “ponham lá o sotor num quarto individual”. Não conseguimos arrancar da pele este servilismo que anos de miséria e ditadura nos tatuaram. E nem nos apercebemos de que somos risíveis nas nossas formalidades e nos nossos doutorismos. Estamos cegos, digo eu. É cultural, dirão outros. O respeitinho é muito bonito dirão os que nunca conseguiram desprender-se do sentimento de inferioridade ou, no outro extremo, os que acreditam que “dantes” é que era.

Sabem, cada vez mais acho que somos um povo tendencialmente bom. Pena que também sejamos tendencialmente ridículos.”

Sobre esta coisa tão tipicamente portuguesa e tão ridícula que faz com que seja aceitável colocar o Dr. atrás do nome no cartão multibanco.

Por Carmen Garcia!