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Há entre nós uma cultura colorida de sofrimento amoroso. A gente acredita em amar sem ser amado

“São as fotografias…elas estão em toda parte. Nas paredes, nas caixas de papelão, na memória do computador. Há fotos também no telemóvel, nas redes sociais, na porta da frigorífico dos amigos. As imagens incomodam, mas, ao mesmo tempo, há algo prazeroso a respeito delas. Os olhos ficam felizes, embora o coração se encolha de tristeza. Por isso as fotos continuam onde estão. Com as peças de roupa acontece o mesmo. Do interior de uma gaveta, inesperadamente, surge um par de meia conhecidas. Outras vezes é uma camisola velha de dormir. O que fazer com elas? Nada. As coisas ficam lá, guardando cheiros e memórias. Quem sabe um fiapo de esperança.

O que não tem nenhuma ambiguidade é o vazio.

Não há nada de bom no vácuo que as pessoas deixam ao sair. Ele se espalha pela casa e pelos dias. Ocupa a mente com intolerável letargia. Quem fica fala de dor, mas talvez não seja a melhor palavra. O que mata é a ausência irreparável. Naquele espaço afectivo cabe um único ser humano que não está mais lá.

(…)

Há entre nós uma colorida cultura de sofrimento amoroso. A gente acredita em amar sem ser amado. Temos prazer em nos colocar na posição de vítimas. Certas dores são inevitáveis – como a do fim dos relacionamentos – mas nós inventamos problemas que não existem. Caímos por gente que nos ignora, o que é normal. Mas insistimos no engano até nos tornarmos inconvenientes, o que é masoquismo.

Nos envolvemos com gente comprometida e depois choramos, desapontados, quando não largam tudo por nossa causa. Saímos com pessoas que saem com tod@s e reclamamos quando não são fiéis. Pode isso?

Somos patéticos nas nossas queixas, essa é a verdade. Nesses assuntos não temos simplicidade, dignidade, resignação. Falta-nos orgulho e ao mesmo tempo falta-nos humildade. Nada mais arrogante do que achar que as pessoas têm obrigação de nos querer – e nada mais vergonhoso do que choramingar em público quando el@s deixam claro que não querem. Onde está o equilíbrio? Em lugar nenhum. Preferimos gravar um vídeo lacrimoso no YouTube a levantar a cabeça e começar de novo, devagarinho. Ou nos achamos no direito de deixar 36 mensagens ofensivas e chorosas na caixa postal de quem teve a má sorte de cruzar nosso caminho. Em duas palavras, preferimos gemer.



Prefiro convidar à alegria.

Quando a dor for inevitável, que seja envergada respeitosamente, escrupulosamente, como requerem os verdadeiros corações partidos.

Andaremos tristes por um tempo (que idealmente será breve, embora possa ser enorme), mas manteremos o respeito por nós mesmos e por aqueles que uma vez amamos.

Nesse período funesto escreveremos poesia, ouviremos músicas sombrias, iremos ao cinema e leremos romances que dormem na estante há uma década.

Recorreremos aos amigos, claro, em busca de amparo e companhia.

Se alguém nos quiser, apesar da dor com nome e sobrenome que trazemos nos olhos, ficaremos grato.

Não faremos jamais do nosso sofrimento amoroso uma plataforma de acusação ou um modo de vida.

Seremos sinceros, tentaremos ser generosos, buscaremos a coragem e a esperança.

As fotografias sairão das paredes quando não forem mais importantes.

As roupas voltarão aos seus donos quando isso não mais tiver significado.
O vazio terá que ser atravessado como uma rua deserta numa noite escura – com mais determinação do que receio.

Se o final do filme não for feliz, ainda assim poremos uma cara forte e ergueremos ao vento nosso nariz em desafio. Sofrer, afinal, é para os fracos, e nosso sonho é forte.”

coachflaviagouveia@gmail.com