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Fica o medo de sermos felizes

Não me considero uma mulher cobarde, Pedro. (…) O medo é uma coisa estranha. Condiciona a nossa vida. Altera as nossas rotinas. Faz-nos evitar coisas simples e viver num labirinto. Faz-nos sentir emoções, em catadupa, que não conseguimos dominar: porque são irracionais, genuínas e, na maior parte do tempo, descontroladas. O medo limita a percepção que temos de nós próprios: porque nos obriga, indirectamente, a não irmos mais longe. E, sem irmos mais longe, Pedro, e sem arriscarmos vencer o medo, nunca sabemos ao certo quem conseguiríamos ser para lá dele.
(…) Mas, como referi, Pedro, o medo é como um vírus: cada vez mais resistente, molda-se a nós. Vai-se alterando e refinando. Ajusta-se. Desafia-nos. E faz parte de viver. Só não tem medo quem nunca sai da sua zona de conforto, quem não procura descobrir, quem nunca corre qualquer risco. Quem nunca muda a vida. Quem a aceita tal como é. Quem nunca foi surpreendido. Quem nunca quis conhecer os seus limites. Só não tem medo quem não vive, Pedro, e se deixa marinar nos dias.
E, mesmo quando o medo da areia e dos monstros e de errar desaparecem, sabes que medo fica?
O medo de as coisas correrem, finalmente, bem. O medo de fazermos avaliações erradas dos outros, com medo que nos magoem, com medo de nos doer de novo. O medo de, afinal, sermos bons naquilo que fazemos: porque toda a vida acreditámos que tínhamos de insistir mais do que os outros, para sermos tão bons como os outros.
Sabes que medo fica, Pedro? Fica o medo de sermos felizes.

Laura Almeida Azevedo
apeteces-me | apeteces-me.com
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Excerto inédito do livro «apeteces-me» a publicar em breve.