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Casais saudáveis amam-se com um amor inteligente e não apenas com a emoção

Ser individualmente inteligente não quer dizer construir uma relação inteligente e saudável. 
Pessoas cultas podem construir uma relação irracional, falida emocionalmente, saturada de atritos, destituída de sensibilidade e troca. Casais saudáveis amam-se com um amor inteligente e não apenas com a emoção. Quem apenas usa o instrumento da emoção para sustentar o relacionamento corre o risco de ver seus sentimentos flutuando entre o deserto e as geleiras. Num momento, a pessoa vive as labaredas da paixão, noutro vive os glaciares dos atritos. Num período trocam juras de amor, noutro trocam golpes de ciúmes. Hoje são dóceis como os anjos, amanhã são implacáveis como carrascos. A relação desinteligente é intensamente instável, enquanto a relação saudável, ainda que golpeada por focos de ansiedade, tem estabilidade. A relação desinteligente é saturada de tédio, enquanto a saudável tem uma aura de aventura. Na relação desinteligente, um é perito em reclamar do outro, enquanto, na relação saudável, um se curva em agradecimento ao outro. Na relação desinteligente, os atores são individualistas, pensam somente em si, enquanto, na saudável, os partícipes são especialistas em procurar fazer o outro feliz. Na relação doente se cobra muito e se apoia pouco, na saudável se doa muito e se cobra pouco. Que tipo de casal você forma: saudável ou doente, inteligente ou desinteligente? Casais inteligentes têm uma mente madura, atentam ao essencial, à grandeza do afeto, à notoriedade do diálogo, ao espetáculo do respeito mútuo, enquanto casais desinteligentes valorizam o trivial, brigam por tolices, dissipam sua energia psíquica com pequenos estímulos stressantes, são rápidos em se acusar e lentos para se abraçar. Casais inteligentes enriquecem o território da emoção, valorizam o que o dinheiro não pode comprar, enquanto casais desinteligentes, mesmo quando enriquecem, empobrecem. Como? Empobrecem dentro de si, pois dão importância excessiva àquilo que o dinheiro consegue conquistar e não a si mesmos. Casais inteligentes mapeiam e domesticam os vampiros emocionais que sugam sua alegria, espontaneidade e romance, enquanto casais desinteligentes escondem os fantasmas nos porões de sua mente. Você é um especialista em apontar falhas ou em apontar os acertos de quem ama? Você mapeia sua irritabilidade, medos, manias, sofrimento por antecipação ou trancafia os fantasmas psíquicos em sua mente? Conviver com pessoas é uma das tarefas mais complexas e saturadas de
aventura da agenda humana. Nada produz tantas alegrias e nada fomenta tantas dores de cabeça. Animais não nos frustram, mas pessoas caras podem nos decepcionar muitíssimo. Animais não nos ferem, a não ser fisicamente, mas pessoas que amamos podem nos ferir nas raízes de nossa emoção. Animais não nos apequenam, não nos dominam nem nos excluem, mas as pessoas em que apostamos tudo que temos, como nosso parceiro ou parceira, filhos, alunos, amigos, podem invadir a nossa psique e fragmentar nosso sentido existencial, imprimir culpa, fazer chantagens, nos deixar nos sentindo inúteis. Nós também, mesmo sem perceber, podemos traumatizar quem mais amamos. As regras de ouro dos casais saudáveis expostas neste livro pertencem à teoria da inteligência socioemocional (multifocal) que utilizei em mais de 20 mil sessões de psicoterapia e consultas psiquiátricas ao longo da minha carreira como profissional de saúde mental e como pesquisador do processo de construção de pensamentos, formação do Eu, papéis conscientes e inconscientes da memória, educação da emoção e formação de pensadores. Essas regras pretendem dar um norte, rever rotas, treinar nossas habilidades, reciclar nossas loucuras, refundar alguns alicerces da relação. Mas, como veremos, essas regras não são rígidas, rápidas e muito menos mágicas. Entretanto, se aplicadas sistematicamente, elas podem ser eficientes. Além disso, as regras são universais e pelo menos uma grande parte delas pode e deve ser aplicada por todos os casais, de todas as idades, povos, culturas e nível acadêmico. Permita-me dar um exemplo de sua universalidade. Certa vez fui visitar uma região amazônica. Fiquei sabendo que alguns membros de uma tribo indígena, com destaque para o cacique, liam minhas obras. Ao conversar com ele fiquei surpreso ao constatar a operação de certas ferramentas psicológicas. Disse-me que aprendeu que os fantasmas da emoção são mais perturbadores que os inimigos da floresta. E que, se não aprendesse a dominá-los, ele não poderia dirigir bem seu povo. Ele encontrou e treinou algumas regras de ouro para ter uma mente mais livre e saudável. Descobriu que os maiores sabotadores de nossa qualidade de vida estão dentro de nós. Podemos ser livres por fora, mas algemados em nossa emoção. Muitos intelectuais nas universidades nunca fizeram essa descoberta. Jamais devemos esquecer que as regras socioemocionais de “ouro” devem ser trabalhadas e treinadas diariamente como ferramentas pelo Eu. Todas as técnicas que produzem efeitos rápidos costumam ser inconsistentes, ineficazes, sem durabilidade. Uma relação saudável e inteligente precisa de uma nova agenda, uma estratégia prolongada e vivenciada ao longo de semanas, meses e anos. Mas os resultados podem ser fascinantes. Romper o cárcere da rotina e se abrir às surpresas é ter um romance com a vida.
Texto: Augusto Cury