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Ás vezes acho que sou pelo menos duas: a mulher que os outros vêem e a que eu me vejo

“Onde está a verdade?
Quem é de facto a mulher que está à minha frente? E que elementos e características são comuns à mulher que os outros observam e à que se vê a si mesma?
-A mulher que está à tua frente sou também eu e é também a que os outros vêem. Eu não posso deixar de ser o que os outros convocam em mim, diria até que o que fica da nossa história é a forma como os outros nos olham. Não temos como não ser esses que nos dizem sermos, mesmo que no nosso não ser esses que nos dizem sermos, mesmo que no nosso íntimo possamos ser algo substancialmente diferente. Mas respondendo à pergunta, ao ser essa que os outros vêem, sou também o que se lhe opõe. Acredito que o ser humano é um animal comparativo, mas antagónico em toda a sua extensão. Estou a fazer-me entender?
O facto de não praticares o mal não significa que ele não exista em ti, porque só não pode existir o que desconheces, o que não tens de todo forma de consciencializar. Logo, eu serei tão má quanto boa me conseguir apresentar, serei tão rebelde quanto mansa me obrigar a ser. A verdade não existe. Eu sou tudo, não somente a percentagem positiva das coisas que faço, mas também as décimas de maldade que evocar em mim.
Esse fragmento, essas falhas tectónicas em cada um de nós, podem levar-nos ao abismo, é por elas que podemos cair e não é por serem grandes. É por serem, ponto.”
Livro: Na persistência da Memória 
Autor: Daniel Oliveira