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Agarrar(t)

“Agarrar deve ser a arte menos bem ensinada, mas tão importante para tudo na vida. a forma como se agarra um trabalho, uma profissão, uma vontade. ou a forma como se agarra um amor, um corpo, aquela pessoa. porque pode-se querer, gostar, lutar, mas saber agarrar algo, ou alguém, requer muito treino, muita entrega e sabedoria. agarrar é um misto de força e cuidado. de posse e entrega. por isso, gosto de quem me agarra com força, homem ou mulher: um aperto de mão forte, um abraço que prende, um beijo que arrepia. por isso, gosto de segurar com força, mostrar a vontade, a necessidade, mas ao mesmo tempo (e aqui, a arte), saber parar no ponto certo onde se consegue misturar na força o cuidado, o carinho, e a doçura – salgada, sempre.

O tango, por exemplo, é a arte pura de agarrar quando se dança. a forma como uma mão diz o caminho, como um pé ordena os passos, sempre o homem, a comandar, a coordenar, mas a deixar a mulher brilhar. a dizer o caminho, mas a deixar-se ir atrás. cavalheirismo mais puro, esse cuidado de decidir, mas deixar ser ela a avançar. como quando se abre uma porta e apenas se toca com a mão nas costas, para ela passar primeiro, como que a indicar, discretamente, o caminho. mas a deixar-lhe a opção de ela o querer seguir.. mas voltemos à música, porque agarrar tem de ter ritmo. tem de ter o tempo certo. há momentos para se agarrar com força e outros para quase só tocar. momentos que se agarra, parados, tipo rocha, como quando precisas de chorar no meu pescoço, escondida do meu olhar. e momentos para se agarrar em dança louca, como quando te puxo pela mão no meio da rua, ou quando te agarro no meio da cozinha, beijo inesperado, suspiro no pescoço, e te solto logo de seguida – mas aí, só sei que te agarrei mesmo, depois de te soltar: quando ficas com aquele olhar parado em mim, quase sorriso de lado..”

Texto: Homem dos Momentos;)