fbpx

A Chave: Certos objectos dão a exacta medida de um relacionamento..

A chave, por exemplo. Embora caiba no bolso, ela tem uma importância gigantesca na vida dos casais. O momento em que tu ofereces a chave da tua casa é aquele em que tu renuncias a tua privacidade, por amor. Quando pedes a chave de volta – ou trocas a fechadura da porta –  estás retomando aquilo que havias oferecido, porque o amor acabou.
O primeiro momento é de exaltação e esperança. O segundo é sombrio.

Quem já passou pela experiência sabe como é bom carregar no bolso – ou na bolsa – aquela cópia de cinco euros que vai dar início à nova vida. Carregada de expectativas e temores, a chave será entregue de forma tímida e casual, como se não fosse importante, ou pode vir embalada em vinho e flores, pondo violinos na ocasião. Qualquer que seja a cena, não cabe engano: foi dado um passo gigantesco. 
Não interessa se tu dás ou ganhas a chave, a sensação é a mesma. Ou quase.

Quem a recebe se enche de orgulho. No auge da paixão, e a pessoa que provoca seus melhores sentimentos (a melhor pessoa do mundo, evidentemente) põe no teu chaveiro a cópia discreta que abre a casa dela. Tu só notas mais tarde, quando chegas à tua própria casa e vais abrir a porta. Primeiro, estranhas a cor e o formato da chave nova, mas logo entendes a delicadeza da situação. Percebes, com um sorriso nos lábios, que tuas emoções são compartilhadas. Compreendes que estás sendo convidad@ a participar de outra vida. Sentes, com enorme alívio, que foste aceite, e que uma nova etapa tem início, mais intensa e mais profunda que anterior. Aquela chave abre mais do que uma porta. Abre um novo tempo.
O momento de entregar a chave sempre foi para mim o momento de máximo optimismo.
Tu tens a certeza de que el@ ficará feliz e comovid@, mas ao mesmo tempo teme, secretamente, ser recusad@.
Então vês nos olhos del@ a alegria que havia antecipado e desejado. O rosto querido se abre num sorriso sem reservas, que tu não ganharias se tivesses lhe dado uma joia ou uma aliança. 
(Uma não vale nada; para a outra el@ não está pront@). Por isto el@ esperava, e retribui com um olhar cheio de amor. Esse é um instante que viverá na tua alma para sempre. Nel@, tudo parece perfeito. É como estar no início de um sonho em que nada pode dar errado. A gente se sente adulto e moderno, herdeiro dos melhores sonhos da adolescência, parte da espécie feliz dos adultos livres que são amados e correspondidos – os que acharam uma alma gêmea, aqueles que jamais estarão sozinhos.
É claro que nem toda chave abre passagens luminosas para o futuro. Às vezes, elas encerram um tempo que acabou. É a chave que se lança por debaixo da porta ao sair, no meio da noite, como declaração silenciosa de quem não pretende voltar. Ou a chave que se coloca sobre a mesa, depois de uma conversa triste, como selo de separação. Há também a chave que se atira com raiva e frustração – contra a parede, pela janela, no rio – porque ela não leva mais aos sentimentos a que antes conduzia. Ou a chave da casa nova que alguém nega, com um olhar obstinado de desculpas.
Se essas chaves de despedida parecem a pior coisa do mundo, não são.

Mais triste do que isso é nunca ter recebido a chave, não ter atingido aquele momento de intimidade e confiança em que o outro diz, com um gesto, “mi casa es tu casa”. O que equivale a dizer minha vida é a tua vida.
A gente sabe que essas coisas às vezes são efémeras, mas é tão bonito.
Pode ser que dentro de três meses ou três anos a chave inútil e esquecida seja encontrada no bolso de umas calças ou no fundo de uma bolsa. Ela já não abrirá porta alguma excepto a da memória, que poderá ser boa ou ruim. O mais provável é que o tacto e a visão daquela ferramenta sem propósito provoquem um sorriso agridoce, grisalho de nostalgia. Essa chave do adeus não dói, ela constata e encerra.
Nestes tempos de arrogante independência, em que a solidão virou estandarte exibido como prova de força, a
doação de chaves ganhou uma solenidade inesperada. Com ela, homens e mulheres sinalizam a disposição de renunciar a um pedaço da tua sagrada liberdade pessoal. Sugerem ao outro que precisam dele e o desejam próximo. Cedem o teu terreno, correm o risco. É uma forma moderna e eloquente de dizer “eu te amo”. E, assim como a outra, dispensa “eu também”. Oferece a chave quem está pronto, aceita a chave quem a deseja, reciproca, oferecendo a sua, quem sente que é o caso, verdadeiramente. Nada mais triste que uma chave falsa.
Ela parece abrir uma esperança, mas abre somente uma ilusão.